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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ciências Humanas e Sociologia

Ciências Humanas e Filosofia

“O que é a Sociologia?”


Lucien Goldmann


Introdução

            Ao iniciar este trabalho, pretendíamos intitulá-lo Introdução aos problemas de método em sociologia do espírito. Ao redigi-lo, percebemos que se centrava no problema das relações das ciências humanas com a filosofia.
            Isto, aliás, era óbvio. Se a filosofia é mais do que a simples expressão conceitual das diferentes visões de mundo, se, além de seu caráter ideológico, traz também certas verdades fundamentais concernentes às relações dos homens com os outros homens e com o universo, então estas verdades devem encontrar-se na própria base das ciências humanas e notadamente de seus métodos.
            Toda filosofia é, entre outras coisas, uma filosofia da consciência e do espírito (sem por isso ser necessariamente idealista). As filosofias da natureza, desde o Renascimento até Schelling e Hegel, tentaram introduzir o espírito e a consciência no universo físico. O desenvolvimento das ciências físico-químicas parece ter provado o erro dessa pretensão. Esse desenvolvimento se fez em detrimento da filosofia da natureza que deveu assim ceder terreno. Desta experiência histórica avultou uma idéia, válida para o mundo físico até uma nova ordem: um domínio de conhecimento incorpora-se à ciência positiva na medida em que se liberta de toda a ingerência filosófica.
            O cientificismo tentou estender essa afirmação às ciências biológicas e humanas, preconizando uma biologia mecanicista, uma psicologia behaviorista, uma história empírica e uma sociologia descritiva e coisificante.
            Se tem razão, a filosofia é uma sobrevivência ideológica que não tem mais qualquer razão de ser e de que é preciso se libertar.
            No entanto, se a filosofia, ao contrário, traz realmente verdades sobre a natureza do homem, toda tentativa de eliminá-la falseia necessariamente a compreensão dos fatos humanos. Neste caso, as ciências humanas devem ser filosóficas para serem científicas.
            O estudo do método em ciências humanas coloca assim, no próprio plano da ciência positiva, o problema da inutilidade ou, ao contrário, do valor atual da filosofia. Compreender-se-á que esteja no plano de fundo de nosso estudo.
            Antes de terminar esta introdução, devemos agradecer ao Professor Emile Bréhier que nos levou a refletir sobre os problemas de método; sem suas observações este estudo provavelmente nunca viria à luz.


I

O Pensamento Histórico e seu Objeto

            Todo fato social é um fato histórico e inversamente. Segue-se daí que a história e a sociologia estudam os mesmos fenômenos e que, se cada uma delas captura um aspecto real, a imagem que ela dele nos dá não poderia ser senão parcial, na medida em que não for completada pelas contribuições da outra. Ora a passagem do abstrato ao concreto não se obtém adicionando duas imagens parciais. Não se pode obter um conhecimento real dos fatos humanos reunindo resultados parciais e deformantes de uma sociologia coisificante e psicologista com aqueles de uma história política ou bem simplesmente positivista. O conhecimento concreto não é a soma, mas a síntese de abstrações justificadas. No caso a que nos referimos, as abstrações não sendo justificadas, sua síntese era impossível. Não se trata, pois de reunir os resultados da sociologia e da história, mas de abandonar toda a sociologia e toda história abstratas para chegar a uma ciência concreta dos fatos humanos que não podem chegar senão uma sociologia histórica. É a tese que nos esforçaremos por sustentar no curso do presente estudo.
            A sociologia não pode ser concreta se não for histórica, do mesmo modo, a história, se pretender ultrapassar o simples registro dos fatos, tornar-se-á necessariamente explicativa, a saber, numa medida maior ou menor, sociológica.
            História, sociologia histórica, filosofia da história, tudo isso coloca um problema epistemológico prévio. Por que o homem se interessa por certos fatos únicos e localizados no tempo? Por que se interessa pelo passado e, sobretudo em que se interessa no passado?
            Logo de início a resposta parece simples; o objeto da história é o conhecimento tão rigoroso e tão preciso quanto possível dos acontecimentos, naquilo que têm de específico e de particular, sem qualquer consideração nem pelo interesse individual ou coletivo nem pela utilidade prática. O historiador é um cientista que procura a verdade que é fim e não meio, e não há motivo para interrogar o porquê: Adequatio rei et intellectus, fim geral de toda atividade científica; quanto aos meios, eles são o desinteresse, a erudição, o espírito crítico, o devotamento à tarefa, sem falar obviamente da capacidade de penetração e inteligência.
            Caso se observe, no entanto as coisas mais de perto, elas se revelam muito mais complexas. Tendo que se impor, nos séculos XVI e XVII, graças a uma luta acirrada contra as intromissões teológicas e sociais de toda natureza, a física moderna acentuou com veemência a exigência duma pesquisa desinteressada. Contribuiu, pois para criar uma ideologia cientificista que atribuía a toda pesquisa e a todo conhecimento dos fatos um valor, e considerava com certo desprezo as tentativas de ligar o pensamento científico à utilidade prática e às necessidades dos homens. Dir-se-ia que a sociedade moderna resgatava as faltas do passado compensando as dificuldades dos pioneiros da ciência pela veneração e pelo respeito bem mais pronunciado por todos aqueles que continuassem ou pretendessem agora continuar tarefa semelhante. Os resultados extremos dessa ideologia foram, sobretudo nas ciências humanas, os numerosos eruditos que passam suas vidas acumulando o máximo de conhecimento num pequeno domínio limitado e parcial, acreditando-se antropólogos, historiadores, lingüistas, filósofos, etc.
            No entanto e até mesmo nessas excrescências, essa atitude teve e tem aliada sua utilidade e sua justificação. O trabalho de pesquisa científica necessita liberdade e independência em face de toda ingerência estrangeira. Do mesmo modo, exige do pesquisador, não a renúncia de toda ideologia, mas que faça todos os esforços de que é capaz para subordiná-la, no decorrer de seu trabalho, à realidade dos fatos estudados. Ora, são estes misteres que se exprimem na exigência duma pesquisa desinteressada.
            A valorização da erudição como tal também se justifica, e de um duplo ponto de vista: primeiro, na medida em que a erudição, condição indispensável a toda a pesquisa séria, torna-se naturalmente por ricochete um valor social e na medida em que a valorização da erudição em si – exigência para os escritores de conhecer a fundo os assuntos sobre os quais escrevem – tem por certo influência salutar no nível do trabalho científico; segundo, porque nunca se pode conhecer de antemão nem o interesse científico nem o interesse prático que possa apresentar um conjunto de fatos ainda insuficientemente explorados. Há sem dúvida em certas pesquisas inteiramente eruditas desperdício de tempo e de energia, que faz parte, porém dos gastos improdutivos, mas inevitáveis do trabalho de exploração, e a experiência provou que o apoio a toda pesquisa num ambiente de completa liberdade, sem ter desde o início presente sua utilidade prática, é a atitude que melhor paga no próprio plano dessa utilidade.
            Tudo isto não deve, entretanto mascarar a realidade epistemológica fundamental, afirmada desde 1846 por Marx nas Teses sobre Feuerbach e recentemente de novo iluminada pelas investigações psicológicas e epistemológicas de Jean Piaget. O pensamento humano em geral e, implicitamente, o conhecimento científico que é um seu aspecto particular, estão estreitamente ligados às condutas humanas e às ações do homem no meio ambiente.  Fim último para o investigador, o pensamento científico é apenas meio para o grupo social e para a humanidade inteira.
            Ora, deste ponto de vista, a utilidade prática das ciências físico-químicas é evidente. Constituem o fundamento de toda técnica; o meio, não apenas de prever, como queria A. Comte, mas também de produzir, dominar e transformar a natureza. Mas essa própria evidência coloca o problema do fundamento das ciências históricas. Para que serve o conhecimento de acontecimentos tímidos, irremediavelmente localizados no tempo e no espaço, sobretudo quando se trata de acontecimentos passados?
            Eliminemos logo de início a idéia de que a principal utilidade da história poderia residir no fato de fornecer ensinamentos, de ensinar aos homens com agir agora ou no futuro a fim de realizar os fins que se propõem. É evidente que no mais das vezes as condições se alteram profundamente e que não se aprende na história das guerras púnicas como ganhar hoje uma batalha, nem na história da Revolução Francesa ou Inglesa, como resolver os problemas propostos pelas revoluções contemporâneas. Deste ponto de vista, o valor pragmático das ciências humanas é quase nulo, podendo-se nelas ver o caso típico duma ciência puramente erudita e desinteressada.
            Parece-nos, entretanto que, se as víssemos dessa perspectiva, confundiríamos o caráter necessariamente desinteressado da investigação individual com o caráter contrário, necessariamente ligado à prática e à vida, de todo sistema de conhecimento encarado em sua função social. Somente, os homens e os grupos sociais procuram na história principalmente valores e fins, atribuindo caráter associatório aos meios, isto é, aos processos e técnicas.
            O problema dos fundamentos ontológicos e epistemológicos da história é um aspecto particular do problema ontológico geral das relações do homem com seus semelhantes, problema que certos filósofos contemporâneos, partindo duma posição cartesiana, designaram pelo nome de problema do “Outro”, que seria, contudo designado de modo mais preciso como o problema do “Nós”. Este não é, aliás, um simples jogo de palavras, mas um dos pontos de partida mais importante da filosofia moderna.
            “Ego sum, ego existo”, escrevia Descartes pondo em relevo este Ego que permanecerá o fundamento de toda filosofia racionalista ou empirista, através das mônadas de Leibniz, a sensação dos empiristas, o eu de Fichte e até mesmo os atributos radicalmente separados uns dos outros de Espinosa; fundamento presente ainda em nossos dias, quando lemos numa gramática ginasiana, como se fosse óbvia, a afirmação: “Eu não tem plural. Nós é eu e tu”. Nessa perspectiva, sendo o Ego o primeiro dado fundamental, o ponto de partida, o problema das relações entre os homens, quando se põe, torna-se naturalmente o problema do “Outro”. Os “outros” homens são assimilados à realidade física e sensível. Não são mais do que seres que vejo e ouço, como vejo uma pedra que cai e ouço sua queda. Não é de admirar a constatação que, se há, com efeito, uma história exterior racionalista ou empírica, não há lugar, no quadro dessas duas perspectivas, para uma filosofia da história. É porque para elas o passado é radical e meramente passado, não possuindo qualquer importância existencial, nem para o presente nem para o futuro.
            O pensamento dialético, ao contrário, começa com uma frase talvez extremada, mas que é quase um manifesto: a proclamação da mudança radical que acaba de operar-se no pensamento filosófico. Ao ego de Montaigne e de Descartes, Pascal responde: “o eu é detestável”; de Hegel a Marx os “outros” homens se tornam, cada vez mais, não seres que vejo e ouço, mas aqueles com os quais ajo em comum. Não se situam mais no lado objeto, mas do lado sujeito do conhecimento e da ação. O “Nós” devém assim a realidade fundamental em relação à qual o “eu” é posterior e derivado. Nos nossos dias, um dos maiores poetas revolucionários, B. Brecht, formulou essa posição em termos que, sem querer, retomam a frase de Bruneau, invertendo os acentos. Ao capitalista colonial que lhe pede sacrificar-se por sua empresa, apresentada como obra civilizadora comum, o cule responde: “Nós e eu e Tu não são a mesma coisa”.  O que significa: somente há “Nós” quando há comunidade autêntica. Ora, na empresa dita comum, o operário procura seu salário, o capitalista, seu lucro. A passagem da falsa situação do “Eu e Tu” para o “Nós” autêntico e consciente é a questão dos fundamentos epistemológicos da história.
            É a partir daí que se faz mister encarar o problema donde partimos. O fundamento ontológico da história é a relação do homem com os outros homens, o fato de que o “eu” individual só existe como pano de fundo da comunidade. O que procuramos no conhecimento do passado é a mesma coisa que procuramos no conhecimento dos homens contemporâneos. Primeiro, as atitudes fundamentais dos indivíduos e dos grupos humanos em face dos valores, da comunidade e do universo. Se o conhecimento da história nos apresenta uma importância prática, é porque nela aprendemos a conhecer os homens que, em condições diferentes e com meios diferentes, no mais das vezes inaplicáveis à nossa época, lutaram por valores e ideais, análogos, idênticos ou opostos aos que possuímos hoje; o que nos dá consciência de fazer parte dum todo que nos transcende, a que no presente damos o nome de continuidade, e que os homens vindos depois de nós continuarão no porvir. A consciência histórica existe apenas para uma atitude que ultrapassa o eu individualista, ela é precisamente um dos principais meios para realizar essa superação. Para o racionalismo, o passado não é senão um erro cujo conhecimento é útil para iluminar o progresso da razão; para o empirismo, consiste numa massa de fatos reais que são, como tais, exatos em relação a um futuro conjetural; só a atitude dialética pode realizar a síntese, compreendendo o passado como etapa e caminho necessário e válido para a ação comum dos homens duma mesma classe no presente, a fim de realizar uma comunidade autêntica e universal no futuro.
            O que os homens procuram na história são as transformações do sujeito da ação no relacionamento dialético homem-mundo, são as transformações da sociedade humana.
            Segue-se daí que o objeto das ciências históricas é constituído pelas ações humanas de todos os lugares e de todos os tempos, na medida em que tiveram ou ainda têm importância ou influência na existência e na estrutura de um grupo humano e, implicitamente por meio deles, uma importância ou uma influência na existência e na estrutura da comunidade humana presente ou futura.
            Esta definição engloba não apenas fenômenos coletivos como as Cruzadas ou a Revolução Francesa, mas ainda comportamentos ou atos individuais como a vida de Napoleão, os Pensamentos de Pascal ou a ação de São Domingos e de São Francisco, com também a de Grachus Babeuf. Eis porque nos parece apta para iluminar dois falsos problemas que se encontram freqüentemente em obras de metodologia: 1) o da determinação do acontecimento histórico por sua influência ou por seus valores; 2) o da escolha entre as forças coletivas e a ação dos grandes homens da história. A respeito da escolha dos acontecimentos históricos no conjunto da realidade, duas teses contrapõem os teóricos. Uns sustentam que os fatos são históricos pela influência que exerceram no curso dos acontecimentos. É a tese de Eduardo Meyer, por exemplo, a quem Max Weber replica: todo acontecimento exerce influência maior ou menor sobre todos os outros, não havendo por escolha possível entre acontecimentos históricos e aqueles que não o são. Eis o motivo que conduz Weber, ligando-se à escola neokantiana de Heidelberg, a pensar que o único critério para essa escolha é a importância dos acontecimentos em relação a nossas escalas de valores. Um acontecimento devém histórico, embora tenha exercido mínima influência sobre os homens, na medida, por exemplo, em que exprime uma atitude fundamental para valores que possuem ainda um relacionamento importante com os que hoje admitirmos.
            Vê-se facilmente que, aceita nossa definição, o problema torna-se fictício, pois sendo a comunidade humana um valor universal válido para todos os homens, tudo o que teve ou tem ainda influência notável na natureza dessa comunidade, tudo o que ultrapassa o indivíduo para atingir a vida social (da qual a vida intelectual e particularmente os valores fazem parte integrante) constitui um acontecimento histórico.
            É o mesmo critério que precisa a importância dos grandes homens para o estudo da história. Não tendo senão um único objeto, a vida social sob todas as suas formas, ela se interessa por tudo aquilo que teve ou ainda tem influência notável na comunidade. Isto também vale para a vida e a ação dos indivíduos. Se nascesse cinqüenta anos antes, sob o reino de Luís XV, o jovem oficial Bonaparte e sua vida provavelmente não teriam senão interesse anedótico, na medida em que as circunstâncias teriam limitado o seu alcance e sua ação. Do mesmo modo, a biografia de Racine ou de Kierkegaard só interessa à história numa escala muito limitada e duma maneira indireta, unicamente pelos esclarecimentos que eventualmente pode trazer para a sua obra. Esta última, em compensação, é por si mesma um fato histórico da mais alta importância, em virtude da influência que teve, num certo momento e ainda agora logra manter, no modo de pensar e de sentir dos homens que constituem certos grupos sociais. Do mesmo modo, a biografia de um senhor feudal do século X ou XI pode ser altamente interessante para o historiador, na medida em que apresenta traços típicos que permitam compreender o estilo geral da vida dos senhores dessa época, ou ainda uma atitude humana particularmente expressiva diante de certos valores morais ou sociais. Permanecerá, no entanto um estudo erudito mais ou menos desprovido de interesse quando narra um caso individual que não é nem típico nem expressivo, tendo exercido influência muito reduzida na vida dos grupos de seu tempo.
            Assim sendo, o que age sobre a comunidade é por isso mesmo um fato histórico, pois a vida social constitui o único valor comum que reúne os homens de todos os tempos e de todos os lugares. O que procuramos nos fatos históricos é menos sua realidade material do que sua significação humana, impossível evidentemente de ser conhecida separada da primeira. A importância de um estudo técnico e erudito dos meios e dos processos militares, graças aos quais Frederico II, por exemplo, ou Napoleão ganharam uma batalha, reside, sobretudo no modo de revelar-nos a energia humana e psíquica com a qual esses monarcas perseguiram seus fins, as repercussões de suas ações nos homens de seu tempo, as reações desses homens; em suma, tudo o que ultrapassa a minúcia anedótica ou erudita pode através dela estabelecer uma relação humana positiva ou negativa (pode-se escrever Nero ou Nicolau I no lugar de Napoleão) ente nós e os homens do passado.
            Isto indica uma diferença fundamental entre a história, que estuda os comportamentos humanos, e as ciências físico-químicas que estudam a matéria não animada. Estas abordam os fatos unicamente no plano exterior, em sua realidade sensível, o historiador encontra-se, porém diante de ações realizadas conscientemente (seja esta consciência verdadeira ou falsa), cuja significação deve antes de tudo procurar. Dizer que ocorreu em 79 d.C. uma erupção do Vesúvio, procurar suas causas físicas é algo inteiramente diferente do que reconstituir as reações dos habitantes de Herculano ou de Pompéia diante dessa erupção. Um dos principais méritos da fenomenologia e, em psicologia, da teoria da Gestalt, foi lembrar-nos a importância dessa consciência e a significação que para ela têm os atos e os acontecimentos. Nesse sentido, estudar a história é primeiramente tentar compreender as ações dos homens, os móveis que os moveram, os fins que perseguiram, a significação que para eles tinham os seus comportamentos e suas ações.
            Isto é tudo? Não o cremos. A fraqueza da fenomenologia nos parece precisamente residir na decisão de limitar-se a uma descrição compreensiva dos fatos de consciência (ou, para ser exato, de sua “essência”). A estrutura real dos fatos históricos comporta, todavia, além de sua significação consciente no pensamento e nas intenções dos agentes, uma significação objetiva que difere da primeira freqüentemente duma forma notável.
            As guerras napoleônicas eram defensivas ou ofensivas? Tratava-se de estabelecer uma hegemonia européia ou simplesmente de defender as conquistas da Revolução contra governos do antigo regime e, ao mesmo tempo, impor à Inglaterra a existência de um novo Estado burguês que poderia vir a ser um concorrente eventual? A resposta depende, bem entendido, do resultado de estudos especializados, deve, contudo realizar-se em dois planos: 1) o da consciência dos principais agentes, sobretudo do próprio Napoleão; 2) e ainda o dos fatores sociais, econômicos, políticos que tornavam essas guerras mais ou menos inevitáveis, fossem quais fossem as intenções dos dirigentes do Império e a significação que tinham para eles.
            Do mesmo modo, o restabelecimento das dignidades e dos títulos de nobreza, por exemplo, que na intenção do imperador deveriam substituir duma maneira mais ou menos equivalente os títulos antigos e criar uma nobreza mais ou menos análoga à antiga, nunca pôde apagar a diferença objetiva e radical entre a nobreza e a corte, ligada à monarquia do antigo regime, e a nobreza do império, objetivamente vinculada às conquistas da Revolução (abolição dos direitos senhoriais, venda dos bens nacionais, código napoleônico, etc).
            Um historiador não poderia compreender a estrutura social o Império, nem ignorando a intenção subjetiva de seus dirigentes de apagar as últimas lembranças do período jacobino, de restabelecer a ordem social, a nobreza, e de voltar à legitimidade, nem do mesmo modo deixando na sombra a vinculação objetiva dessa intenção com a Revolução e com a luta contra o antigo regime.
            O duplo plano no qual é preciso estudar os acontecimentos históricos e sociais também implica duplo critério para os juízos de valor que devem dar conta tanto da coerência humana e da força criadora dos indivíduos como da relação entre suas consciências individuais e a realidade objetiva. Esta consideração coloca um dos principais problemas de toda a sociologia de espírito: o problema das ideologias. Demasiadamente vasto para que possamos estudá-lo a fundo, não deixará, no entanto de estar no centro este trabalho, como está também no centro de todo estudo sociológico que se esforça por aprender os aspectos essenciais da vida humana.

O que é sociologia?